Pelé ou Messi?
Quem foi o melhor jogador de futebol masculino até hoje?
Em dezembro de 2022 sobrevieram dois acontecimentos, um feliz e um triste[1]: Messi venceu sua sonhada-esperada-exigida Copa do Mundo (Diego não está no céu porque não existe esse céu e possivelmente tampouco quaisquer deuses religiosos, mas os do futebol existem: justiça feita, Lionel, o maior jogador do milênio, e seu insuportavelmente fanático povo (aos quais quase me juntei seduzido cantando “(…) muchaaaachos, ahora nos volvimos a ilusionar (…)”) conquistaram la tan deseada tercera estrella), e o Rei nos deixou. Nem tratarei da morte de Pelé, já que o scriptum deste post é justamente um panegírico (e à época ântumo), só tecerei alguns comentários sobre a discussão “quem é o melhor da história no futebol masculino?”, que chegou muito próxima à meia-noite com esses dois episódios separados por nem duas semanas.
Messi, que tecnicamente teve um auge estendido por dez anos, viveu o apogeu de sua glória ao conquistar a Copa de 22: a taça dourada que ele não largava (a sua fotinho dormindo com ela correu o mundo — não que muita coisa não corra o mundo diariamente, mas enfim) é uma cereja no topo do bolo de seus títulos tão valiosa quanto o bolo inteiro: encerra uma carreira completa, que continua (…e viveram felizes para sempre em Miami), mas agora sem mais faltas. Então ele merece todos os elogios hiperbólicos típicos da crônica esportiva (do nível dos dispensados por mim ao tricampeão há pouco) sem que imediatamente seja colocado à sombra de Pelé ou Maradona por pelezistas e maradonistas, ainda que as comparações sejam naturais neste momento devido ao seu reajuste na posição histórica estimulada por esse título, que é de longe o maior para um jogador de futebol; as acareações acontecem também em reação às afirmações definitivas de que não houve nenhum maior do que Lionel.
Então, sim, toda a glória a Messi, maior jogador deste século e que eu considero o melhor da história depois de Pelé: muitas vezes os diagnósticos de que Messi foi maior/melhor do que aquele a que chamamos rei me parecem insustentáveis, mas é igualmente insustentável negar a possibilidade de equiparação ou, ao menos, comparação justa entre ambos. Pois sejamos, afinal, justos, e sou fã também do alienígena argentino: Messi sai dos zagueiros como um surfista sai do tubo; e ele em si é tudo menos um surfista, considerando o que o imaginário coletivo define por um: parece um gurizinho nerd esperando a hora do recreio para jogar bola — seu jeito altamente focado e dedicado a uma coisa só (nem para posar para foto ele presta) soa savant, denota aquele gênio específico, que parece ter nascido para fazer uma coisa só e mais nada. E executa seu ofício de modo espantoso, com uma habilidade que não parece aprendível (embora apreensível por qualquer espectador: encanta até fãs de curling). É esteticamente prazeroso de se ver uma porção de marmanjos mui bem preparados feitos de bobo na tentativa vã de interromper a missão daquele que só pensa na bola, que é só dele: qualquer um entende que aquele hobbit ali sabe mais dela do que os que o cercam (no campo e no planeta). Vídeos compilando jogadas suas com títulos como “Messi never dives” são declarações de amor ao futebol, do futebol ideal, de como ele deveria ser jogado. E complementarmente ele tem uma postura ética no campo, exercendo uma liderança algo humilde, sem quaisquer afetações de celebridade e muito respeitada (embora após a Copa ele inflou a autoconfiança patriota e anda rascunhando um papel de xerife que lhe cai meio artificial). Considero que, à exceção da que estou tratando aqui, não há rivalidade para ele (superou Maradona (exceto talvez no fetiche argentino por um malandro marrento — mas não sejamos pejorativos, havia também na sua atitude solta e espontânea (que mimetizava seu natural trato com a bola) um líder romântico, altivo e de ares rebeldes, de, ainda sob um verniz romântico, resistencia sudamericana — embora, aí já no verniz pejorativo, colateralmente de desorganização latina); CR7 foi um contraponto de narrativa midiática que não ultrapassará a década (a história os distanciará naturalmente, embora o português evidentemente não seja pouca coisa: seus admiráveis esforços, disciplina e resultados o garantem num panteão cuja casta ele não recebera ao nascer mas a conquistara, portanto mais merecidamente do que quaisquer outros predestinados ou favorecidos a tal) e não tenho dúvidas de que seja melhor do que Cruijff e outros jogadores do maior quilate, incluídos aí certos brasileiros que iniciam com a sílaba “Ro”, além do inimitável Manoel). Então, sim, La Pulga é o único a ganhar o direito de disputar o cinturão com Édson Arantes do Nascimento.
(MJ perde o sono com LJ se apresentando, à base da longevidade e regularidade, sorridente como o líder de cada vez mais estatísticas na história e [em]pilhando recordes; os que Federer sustentava no alto do seu pedestal foram quebrados antes de ele se aposentar — e enquanto nos impressionamos que tenham sido entre si contemporâneos os três maiores tenistas que já existiram, o hype d’artagnânico (e também uns majors e Masters no bolso já, especialmente se projetados pela idade) sugere talvez em Alcaraz algum algoz de seus assentos gloriosos: o emergente ídolo talvez sintetize o animal Nadal (fúria picassiana), o bailarino Roger (helvético relógio preciso e elegante — superado nas estatísticas, mas cujo backhand de uma mão só é um Discóbolo, embora possa ser tradição suíça isso, já que o de Wawrinka também é primoroso (e falo então, sobre Federer, de elegância e estilo especificamente aqui, dado que o seu forte, embora fosse equilibrado como disse, era a direita) e a máquina Nole (mineral sérvio servo da busca pela perfeição), e pode, sem por ora grandes concorrentes da mesma geração no horizonte (Sinner? Se não, quem?), arrendar para si as posições lotadas pelo trio; Bubka dormiu tranquilo por mais de duas décadas até Lavillenie elevar em 1 centímetro sua marca estabelecendo um novo topo, aí nem meia dúzia de anos depois surgiu Duplantis suplantando sequencialmente os recordes; Martina era a maior e viu Steffi; Steffi, Serena; Kasparov viu o prodígio Carlsen amadurecer; depois de estrelar alguns filmes e encapar muitas revistas, Ronda teve sua então mortal chave de braço desprezada pelo atropelo que sofreu da lioness-goat Amanda Nunes; todos os isaacs com seus alberts, e seus alberts com suas mecânicas quânticas (mas, para não deixar dúvidas, trata-se aqui somente da ameaça do aparente intocável estabelecido valor histórico (tanto que citei apenas alguns exemplos disso, pois há outros ainda isolados, alguns recentes, como Bolt e Phelps, outros ainda em atividade, como Marta, e outros já se mantendo há mais tempo mesmo aposentados, como Gretzky); falo da ameaça em si, pois sou dos que não acham que LeBron supera Jordan, por exemplo, para citar apenas um dos tantos que enumerei aqui — e mesmo aí parece que a gente esqueceu o singular (a, no melhor sentido, aberração) Wilton e, quase em consenso, desmerecendo o passado. E essas classificações até soam artificiais, já que esse monte de nomes citados aqui não deixa de demonstrar que os mesmos espaços são ocupados em épocas diferentes, espinossauros e tiranossauros não conviveram; leões e tigres na natureza praticamente tampouco; e aí parece só conversa inútil de botequim mesmo: o Jordan citado aqui parecia ter alçado a um posto eterno, aí já na geração seguinte a ele o trono treme; por outro lado, quando pensamos em grandes craques que não estão no primeiríssimo escalão histórico, como Bergkamp, Rivaldo e Xavi (embora estejam, ao menos os citados, num escalão bem alto, ninguém discute se eles foram maiores do que Cruijff, por exemplo), percebe-se que a deferência é a mesma, só cambia a escala, como trocar de marcha mesmo: a rotação é igual, mas a consequência é diferente no modo como se amplifica, mais ou menos como Bráulio Bessa sentindo o mesmo furor poético de Ferreira Gullar ou, mais agudamente, qualquer poeta de final de semana tomado pela inspiração como Rilke à beira do Adriático elegido no Duino. O exemplo da poesia talvez tenha desviado um pouco o raciocínio, mas voltemos mais objetivamente: se analisados nas suas células, não há muita diferença dos jogadores atuando: algum gol do Dodô ou coisas que o Iniesta fazia demonstram que não só Zidane poderia fazer tal coisa, não só Messi poderia fazer tal coisa, mas fatores de análise mais composta — ou seja, não apenas assistir a um jogo ou a um lance —, que os graduam — Aníbal Carracci pintou Madonna col Bambino in gloria e i Santi (…) e não é lembrado como Tintoretto, Kawhi poderia ser melhor do que LeBron se não tivesse um joelho de vidro —, então o que destaca é uma abordagem mais ampla, que analisa aquilo inserido no seu tempo e os feitos atingidos, e aí justamente que percebemos que, sim, há degraus diferentes, há marchas maiores; mesmo que até o acaso esteja envolvido, podemos aplicar isso a uma análise histórica e considerar que os destaques não são meras ocupações cambiantes de cargos fixos). Pelé quase descansou em paz sem ter essa sensação ameaçadora do novo (porque os demais, mesmo El Pibe de Oro, foram, a rigor, fogo de palha ou laranjas de uma oposição de previsão apenas teórica), mas, se as leu, muitas das últimas manchetes esportivas dos seus últimos dias o destronavam, pois Messi vencera talvez o maior jogo da história das Copas marcando dois gols (e contra um cheio de estrela Mbappé — já um dos principais rostos do futebol e um dos prediletos do Rei, a quem ele, exageradamente, insinuava até ser seu xérox — na velocidade máxima) e subiu o degrau que lhe mantivera até então longe da coroa.)
Mas analisemos: tecnicamente eles empatam na condução da bola contra vários adversários, Messi com uma tenacidade um pouco mais impressionante mas não necessariamente mais eficaz (ambos fazem fila como se fossem running backs deixando os defensores se arrebentando no caminho sem, contudo, impedir suas corridas). Em boa parte do resto de predicados (força, cabeceio, chute com a perna contrária, oportunismo, garra) Pelé supera Messi (o mesmo sistema que fez, dizem, os contemporâneos de Eratóstenes o chamarem β é um argumento para Pelé ser α: ser o segundo melhor em tudo, no caso, em cada fundamento (pode fazer a lista aí), torna o conjunto insuperável — ele cobre uma hipotética escala de recursos técnicos esticada entre Denner e Haaland). Talvez empatem na parte tática, na velocidade de raciocínio e na criatividade (embora o brasileiro brilhasse mais do que o argentino nestes dois últimos, Leo tem uma leitura do jogo e consequente interação com ele extraordinária, única, e numa era em que isso é bem mais complexo). Messi talvez tenha se tornado um cobrador de falta ligeiramente mais preciso. O passe de ambos é irretocável. De aspectos de carreira, ou seja, o que fizeram com aqueles predicados desenvolvidos, ambos paparam tudo e geralmente protagonizando as conquistas, embora ambos também geralmente bem acompanhados nos seus clubes (nas suas seleções nacionais, Lionel sofreu mais e sozinho, Pelé teve companhia magnífica, de alguns outros gênios inclusive, mas foi puro brilho, showtime). Se Pelé foi mais precoce (conquistou o mundo ainda sem poder dirigir ou beber (lembrei que meu avô paterno, o seu Marcolino, contava — com detalhes e confirmado por outros — que estava no aeroporto no retorno da Seleção ao Brasil em 58 e sempre destacava que viu o menino Pelé, que era só um menino, e isso virou daqueles fatos de família que a gente orgulhosamente conserva passando adiante)), Messi foi mais regular, tanto que seu auge é um platô (Pelé teve uma queda de seu desempenho após os 25 anos de idade (muito embora tenha permanecido consideravelmente superior aos demais), que foi compensada na magistral atuação em solo mexicano, em 70 — e cabe lembrar que naquelas décadas chegar aos 30 significava geralmente aposentadoria). Aliás, claro que Pelé ter 3 Copas não é irrelevante, ainda mais que foi o principal destaque em duas delas — e na que levou o título mas não jogou na fase decisiva, a de 62, machucou-se no seu auge, tanto que fez um dos gols mais bonitos daquela Copa (e da história de todas elas) na janela que teve — Messi, na do seu auge físico, em 2010, omitiu-se totalmente (ou, no bom jargão, sumiu em campo).
Nos aspectos extracampo, Pelé foi mais ídolo, até por estar no início da era midiática e estabelecer-se num certo panteão, junto a Marilyn, Elvis, Chaplin, Mickey Mouse etc. Messi, na mesa dos superstars, até cede lugar ao seu contemporâneo Cristiano. Nos aspectos de diferença de épocas, no geral, as suas características se neutralizam: se Messi vive numa era mais equilibrada e profissionalmente preparada, Pelé enfrentou mais violência, jogou com chuteiras e bolas pesadas em campos irregulares; e a régua se propõe atemporal, mas na verdade é a de agora aplicada àquele tempo, sendo desvantajosa ao brasileiro: por exemplo, as excursões dos times pela Europa, que hoje praticamente não existem mais, tinham outra importância numa época em que jogos transmitidos ao vivo nem existiam e mesmo a televisão engatinhava; hoje as estatísticas dessas partidas nem contadas são, mas ilustravam capas de jornais aqui e lá, e nelas Pelé atropelou alguns dos melhores times da Europa, dentre eles o lendário Real Madrid de Di Stéfano; outro aspecto eram as prioridades: depois de decidir um embate equilibrado contra o Peñarol e vencer a guerra contra o Boca lá na boca da Boca sob coisas campo e extracampo que seriam abominadas hoje, o Santos simplesmente abriu mão de disputar a Libertadores no final da década de 60[2]. E não podemos subestimar o mérito do pioneirismo: Pelé possivelmente estreou como jogador sem nunca ter visto um vídeo de outros que o precederam (se viu, foi algo no cinema, seguramente um material não muito extenso) e conhecendo na sua maioria jogadores locais. Messi pode superar os números absolutos de Pelé, mas o gênio emerge no seu tempo, no seu contexto. Pioneirismo em si vale muito (muito cuidado com as analogias, que podem ser bem espertinhas, mas o teorema de Pitágoras é sabido por qualquer aluno mediano de 13 anos; há dois ou três milênios, foi uma grande descoberta). Sem contextualização histórica, o Empire State Building é apenas um dos 60 edifícios mais altos do mundo. E “se Pelé jogasse hoje”, ele não deveria ser transportado diretamente da década de 60: deveria jogar com a bola de hoje, tendo assistido a vídeos desde criança, nos tapetes atuais, com acesso a um assessoramento profissional na sua formação de base etc. Vide a altura que Pelé saltava (ou o metro mudou de lá para cá?): imaginem esse felino humano com treinamento, alimentação e tecnologia dos materiais atuais? E invertamos tal pergunta: e o Messi nascendo em Rosário em 1940? No futebol argentino dos anos 50, levando bico à altura da cintura, bola e chuteira pesando 1 kg na chuva? Sem o programa especial que passou pelo Barcelona desde a adolescência, sem o tiki-taka a seu favor (que consagrou mesmo sem ele uma seleção numa Copa)? Sem o var e os cartões para protegerem (com justiça, mas cabe lembrar que Lionel cobrou nada menos do que cinco pênaltis no Qatar — Pelé nunca teve chance de cobrar um em Copas) sua integridade? Sem fisioterapia de ponta? Com treinamento nível educação física de colégio e alimentação nível refeitório de firma? Lionel é tão talentoso que se destacaria igualmente, mas teria dificuldades — inclusive na sua formação — que provavelmente o molestariam nalgum nível. Mas tudo só para trazer mais essa reflexão: o tempo atual tem diversas vantagens também. Os argumentos que usam para justificar que Messi superou Pelé frequentemente escorregam para uma ignorância analítica típica desta época (cartesianas, parciais, sem nenhum senso histórico, geralmente o equivalente (a análise, não a proporção entre eles, como digo neste texto) a dizer que hoje, em pleno terceiro milênio, algum desenhista hiper-realista, como há aos montes no Instagram, superou Ingres, ou ficar com preguiça com os efeitos especiais de Metrópolis), que me faz temer pelo legado que será levado ao futuro (fora coisas como “cancelar Picasso” pelos relatos reputacionais auferidos com o mais severo neomoralismo contemporâneo). Frequentemente me parece que quem acha que Messi é melhor/maior do que Pelé (especialmente citando isso depois de uma quebra de recorde específico) não entende de futebol, de ser humano, de genialidade, de estética e de história. E talvez seja sintomático desse imediatismo contemporâneo: no Pós-Modernismo “previu-se” um presente onipresente sobrepondo à história[3]. Essa é uma das explicações para a nova geração pôr Messi acima de Pelé: eles não sabem do que veio antes. A Segundo Guerra não é mais inesquecível, Camões é um nome desfocado descolado do que fazia, significa apenas “algo antigo importante no colégio”: o passado e a história são um eco distante que não serve para nada e se apresenta borrado hoje, de modo a se aplicar um pacote de equívocos que o desvirtua: “Mozart hoje em dia seria só um participante do Pequenos Gênios no Domingão do Huck”, “Pelé enfrentava pedreiros”, “Steve Jobs é um gênio incomparável que mudou a humanidade mais do que qualquer outra pessoa” etc. Pior é isso inda vir num pacote gourmet de análise crítica (Cheetos servido no Le Mirazur) à “segue o fio” (nesse viés específico, sinto-me o mais ferrenho conservador, no sentido de que parece que será necessário que nós façamos algo para conservar o melhor do que já fizemos. Ou daqui a três décadas a lista com os maiores filmes de todos os tempos será encabeçada pel’Os Vingadores — algum dos 48). Tanto que em muitos casos não é preciso convencer de que Pelé foi maior/melhor, é preciso apenas convencer a conhecer o mínimo da história — sim, pessoal por aí afirma algo absoluto sem conhecer o todo, um fetiche com o acrônimo goat e nenhum com o esporte, com a arte de jogar. As coisas viram facilmente de todos os tempos porque só se olha este tempo. Fomos à Lua quando a computação tinha a tecnologia de uma calculadora atual, isso não quer dizer que uma máquina de lavar Brastemp lave e seca é superior aos módulos lunares dos anos 60.
Inda que não se trate só de estatística, ainda nela ele é imbatível, se a contextualizarmos: a média de gols por partida, se numa seriação suficientemente grande, diz mais do que o número total deles; a título de exemplo, Lionel Messi ultrapassou os 12 gols de Pelé em Copas precisando de 5 delas, 26 jogos, nenhuma lesão; Pelé alcançara seus 12 em 14 jogos de 4 Copas, das quais 2 saiu machucado, uma, a de 62, no seu auge — acho que ele meteria uns 10 naquela, inda mais com o Mané endiabrado lhe abastecendo. Cabe algum estudo (ou o resultado dele, porque já deve ter sido feito), mas que eu lembre mesmo a proporção de gols de Pelé em relação ao número de gols que se fazia à época é também maior.
E como disse, não é só isso: Pelé é a celebridade alfa. É destaque até nas fotos (poucos no esporte acumulam fotos icônicas como as protagonizadas por ele — e a conclusão lógica de que o volume de atenção recebida por ele e na época dele que gerou esse número maior de fotos icônicas, que seriam em boa parte mérito dos fotógrafos, corrobora o argumento de sua celebridade de primeira grandeza). Em estilo de jogo, acho o movimento de Pelé mais elegante, seguro e arrojado. Pelé também teve lances e episódios mais marcantes, como os gols perdidos em resoluções geniais na Copa de 70 (o truque de ilusionismo contra Mazurkiewicz eu apostaria todo o dinheiro que ganhei na vida (limitado a ¼ do salário mínimo) que nem Romário (o mais preciso), nem Lionel (o mais eficaz), tampouco Diego (o mais ágil), ou Ronaldinho (o mais criativo), nem ninguém teria resolvido (de modo então inédito) daquele jeito: depois de todo mundo de azul celeste e preto ficar por um átimo se perguntando onde estava a bola e onde estava o homem, Pelé então isolado: no vídeo, por uns instantes emoldurado na grande área, e, para sempre, na história — a bola passa pela trave à mesma distância dentre os dedos de Adão e de Deus n’A Criação do Homem).
É comum uma evolução plástica no esporte, que geralmente acompanha também sua esperada evolução de desempenho. O célebre 10 de Nadia não se classificaria nem numa disputa universitária hoje; ainda na ginástica olímpica, os saltos sobre a mesa (antigamente “sobre o cavalo”) de quatro décadas atrás parecem piada comparados aos de ninjas como Simone e Rebeca. E nem precisamos falar dos tempos diminuindo e das distâncias e pesos aumentando (até há um certo problema em comparar atletas de modalidades tão diversas (algumas têm praticantes mais atletas; outras, mais esportistas), talvez seja como comparar a influência na história entre Napoleão e Fleming. Os jogadores de futebol têm diversas chances, podem errar muito, e fazer as coisas de modos muito diferentes, é diferente da tensão cruel de modalidades perfeccionistas: Shi Tingmao e Hongchuan Quan e seus desempenhos irrepreensíveis nos encantam porque planejam algo e não erram; os atacantes são lembrados pelos seus acertos (por erros muito pontuais, mas basta assistir a qualquer partida de futebol, mesmo uma em que o atacante seja lembrado pela marcante atuação, para ver quantas jogadas não dão certo (claro que cansar a defesa adversária já é uma construção na guerra, no xadrez futebolístico, então muita correria de atacante que a torcida reclama está minando a defesa adversária para que se canse e abra espaços para um outro momento (como jabs e cruzados na costela que parecem inofensivos))). O futebol recebe muito mais atenção do que a maioria do resto, especialmente no Brasil, mas talvez individualmente muitos atletas desconhecidos de outras modalidades sejam mais virtuosos fisicamente (habilidade etc.) do que jogadores famosos. Por outro lado, não podemos subestimar o fato de que quase todo menino (com as meninas isso vem crescendo) joga futebol quando criança (além de ser possivelmente o esporte mais praticado no mundo — no Brasil, sem sombra de dúvidas: nem sei se há paralelo no planeta para um grupo tão amplo e numeroso de pessoas que praticam, já em idade adulta e amadoramente, de modo tão sério um esporte como os homens brasileiros praticam o futebol (eu incluído)), daí o funil para se tornar profissional ser disparado o maior de qualquer esporte no globo). E mesmo que haja um estilo no esporte antigo que, como o cinema dos anos 40, pode superar a precisa produção de hoje com elegância e graça, ou ao menos não ser descartável por isso (o balé renascentista de Silivaș no solo em Seul não precisa ser pior do que as potentes decolagens musculosas de hoje, Street Fighter II não precisa ser pior que seus sucessores tridimensionais), e por mais que isso dê ao futebol antigo um valor mais essencial e uma ação mais espontânea, inegavelmente o desempenho nele também vem objetivamente se aprimorando (inclusive a rapaziada do Instagram e TikTok inventa dribles cada vez mais complexos, embora já não sei se efetivos numa partida de verdade como o são nas brincadeiras exibidas), mas mesmo em Pelé há também essa exceção: ele não parece um jogador do seu tempo, pelo contrário, parece do futuro, ou seja, parece ido daqui para lá. Basta compararmos com um de seus mais famosos contemporâneos: sir Bobby Charlton correndo em campo não parece ser do mesmo tempo de Pelé: este parece de agora, aquele na passada já releva ser do passado. Johannes e Franz sustentavam costeletas e cabelos compridos indissociáveis dos 70s; Diego teve seu mullet (ou rabinho, ou mecha descolorida, ou uma porção de outros adornos e cortes que vemos todo janeiro nos patriarcas em férias em Bombinhas); Alfredo e Ferenc pareciam, com duras e sisudas caras (ia dizer “quadradas”, mas Puskás tinha o rosto bem redondo — inda que duro), aqueles homens do Pré-Guerra (aqueles rapazes de 20 anos que soavam quarentões — e me refiro à época, não aos que efetivamente envelheceram por causa da sempre terrível guerra); George Best poderia estar na capa do Let It Be; já há algo apolíneo na figura de Pelé que sublinha, junto com seu telegênico sorriso tranquilo de um herói-galã que vencerá as suas lutas sem suar porque elas já estão definidas pelo roteiro, sua atemporalidade arquetipal; mas aqui, como um lobo rendendo o homem no lobisomem, surge o fã no analista — e fim da análise [</análise>] porque justamente o espanto advindo do exame analítico nos puxa a cadeira da frieza e nos faz cair fãs no chão (e, se não parar, daqui a pouco terei da analisar até quem foi melhor pai).
Pelé é um dos poucos seres humanos que encarnou um arquétipo; nesse sentido, de sintetizar sozinho uma atividade, não há sumário paralelo: ele é Michelangelo, Rafael e Leonardo; é Shakespeare e Joyce; é Beethoven, Bach, Mozart e os Beatles. É a leoa caçando e a gazela fugindo. Arco e flecha. Aquiles e Heitor. Maradona, Messi e CR7. Não é só o maior jogador de futebol de todos os tempos: Jordan, Comăneci, Serena, Bolt, Brady, Biles, os Big 3 do tênis, Phelps, Emelianenko, Gracies, Sonja, Teddy, Tani, Romashina, Witt, Mullen, Sotomayor, Nurmi, Bekele, Joyner-Kersee, Lewis, Thiam, Crouser, Kipyegon, Železný, Zátopek, Brown, Babe, Bo, Isinbaeva, Latynina, Senna, Schumacher, Mangiarotti, Mayweather, Hongchan, Toomey, Ohtani, Pyrros, Mijaín, Karelin, Ali, Messi: todos, todos devem se curvar ante Pelé: é ele o conceito da perfeição encarnado numa atividade específica — único procurador registrado e reconhecido, representante oficial dela, portanto.
“Rei” é pouco. Toda homenagem é pouca.
Top 100 humanidade[4].
Este texto, de 2023, é um P.S. que subescrevia um texto anterior em que falei sobre Pelé quando ele completou seus 75 anos (de 2015, portanto). O postscriptum se estendeu e virou um texto quase independente, este compartilhado aqui, por isso algumas menções ao texto anterior nele, o que não atrapalha de modo relevante sua fluidez.
Ambos os textos estão no meu livro, VÁ (disponível aqui).
[1] Costumo separar bem (meio que totalmente) autor e obra, então não compartilho do luto por celebridades que morrem em idade avançada descrito por muitas pessoas: a obra, que é o elo que criamos com essa personalidade, continua viva porque está registrada, é diferente da relação de uma pessoa por qual nutrimos um afeto efetivo, de nosso convívio (mesmo que apenas nalgum momento da vida), porque aí é a pessoa em si; nas celebridades, essa “pessoa em si” nos chega por meios muito sujeitos, para o bem e o para mal, a forjas, então sempre desconfio que às vezes os mui queridos podem ser apenas bons marketeiros. O próprio Pelé separava Édson, a falível identidade secreta, de Pelé, o herói. E ele mesmo tinha muitas complicações na vida pessoal (que não deixaram de ser a primeira coisa lembrada por muita gente em seguida ao anúncio da sua morte). Mas, ainda assim, mesmo previsível sua morte (ele vinha mal há dias antes da confirmação), eu me entristeci excepcionalmente por uma pessoa que eu não conhecia.
[2] Em 62, contra o Peñarol, Pelé não jogou os dois primeiros jogos da final (ambos os times venceram fora de suas casas por diferenças mínimas), aí voltou para o decisivo terceiro, em solo “neutro” (Buenos Aires), no qual marcou 2 na vitória, já de goleada, de 3 a 0 (o Santos era um esquadrão, seguramente um dos melhores times da história, mas perceba a diferença que fez Pelé). Contra o Boca Juniors no ano seguinte, Pelé fez o gol da vitória por 2 a 1 em plena Bombonera efervescendo (e à época não eram só gritos) com 50 mil pessoas. Em 64 e 65, o Santos caiu nas semifinais em jogos polêmicos e então desistiu de disputar o torneio (mesmo tendo se classificado para tanto) em 66, 67 e 69.
[3] Tentador recortar e colar aqui, despreocupado com descontextualizações, alguns termos de Adorno para ilustrar (cabia um “adornar” tum-tum-pass, hein? Hã? Hã?), para se referir a uma “humanidade sem memória”, “sobrecarregada de estímulos” e que “dispensa experiências acumuladas” (well, ceci n’est pas une monographie (aliás, com esta que parece um Googlê Translatê metidô a bestá (meio humbertiano, meio perua de novela das oito falando “cherry”) já aviso que não ficarei, portanto, referenciando citações), mas, vá lá, neste caso: ADORNO, Theodor W. O que significa elaborar o passado?; in: Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995), mas esse vespeiro envolve bastantes outras coisas; Lyotard, Fukuyama, Boaventura de Sousa Santos, Walter Benjamin etc. Inclusive, para alguns o Pós-Modernismo é justamente a tentativa de historicizar um período que é um saco de gatos, que se define por aquilo que não é (por isso o “pós-” não é à toa). Fora os que diferenciam Pós-Modernismo de Pós-Modernidade. De qualquer forma, a despeito de extensos e sofisticados estudos e teorias filosóficas e estéticas, considero algo perceptível este presente onipresente que não cede espaço à memória (não há stories do Instagram canônicos — temos os memes (não os equivalentes mnemônicos dos genes conceituados por Dawkins, mas os da internet mesmo, esses mesmos), como o famoso “Os dois a 80 tu acha q vai ficar um do lado outro?” [sic], mas justamente a casualidade deles descaracteriza uma “fortuna crítica”). Cada geração sustentando sua memória é normal, mas as mais recentes lidam com um volume tão maior de presente em relação ao passado/memória que optam por consumir seguidamente, e somente ao vivo, o novo, mesmo que ele seja apenas novo no disfarce. Mas definitivamente é uma discussão mais complexa.
[4] A análise, como avisado, sublinhada pela eternização burocrática da morte, descambou para o louvor. Merecido.

